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A Saga Portucalense precisa de novos guionistas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.09.09

Uf!A trabalheira que dá tentar desenredar a meada, pegar no fio e ir por aí fora até desfazer os nós...

Apanhar o fio à meada só com a ajuda de blogues como O Insurgente, tanto nos seus posts como nos seus comentários.

Não posso dizer que reconstituí o filme, mas posso dizer que lhe descobri o guião principal, o motivo, e que a palavra-chave é poder.

 

O mais difícil deste exercício, de começar a reconstituir o guião deste filme, é tentar compreender as personagens: o que as move? O que as fez agir assim e assado?

E para isso é preciso tentar entrar em mentes perversas e medíocres, como são muitas das mentes que vivem e gravitam à volta do poder quando não têm nem o perfil nem a estrutura para o exercer.

 

Palavra-chave: poder;

Guião: manter o poder (uma das personagens); expandir o poder (outra das personagens); ter acesso ao poder (várias personagens, umas de forma realista, outras de forma alucinada);

Personagens bem sucedidas: até ontem, a segunda e alguma das terceiras.

Vítimas inocentes: o cidadão comum que preferiu a realidade à ficção e que não votou PS em 2005 e que voltou a não votar PS em 2009. Vítimas com uma atenuante: o cidadão comum que simplesmente não votou em 2009. A atenuante é ver a decadência geral que o rodeia.

 

O guião é francamente medíocre mas é o que mais se aproxima, a meu ver, do guião oculto, ocultado até ontem ao cidadão comum.

 

Enquadramento do enredo: a forma como este governo acedeu ao poder. Pela mão do anterior Presidente Jorge Sampaio. Certo? E pela ficção nacional: promessas de um céu inatingível. Certo?

 

Mais enquadramento do enredo: o PS escangalha a economia do país no primeiro mandato e como sabe que não vai sair bem do filme desiste a meio do segundo mandato. O seu prazo para desgovernar é de 6 anos, mais ou menos. Foi assim com Guterres.

Ora, desta vez o fim do ciclo em que aguentaria o barco coincidia com as eleições presidenciais. Óptimo! Tal como os anteriores Presidentes, que vieram de primeiro-ministros, também o actual alimentou essa ambição. Why not? Só que para isso era preciso acontecer o que nunca tinha acontecido: que o actual Presidente não fosse reeleito, o que seria inédito.

 

O Presidente não é ingénuo, tem experiência política, lidou com Mário Soares, conhece todas as suas artes e manhas, e mesmo assim... cooperou estrategicamente durante cerca de 4 anos! Com um governo de maioria absoluta! A revelar tiques de autoritarismo e com  uma ambição insaciável de expandir o poder! A esmifrar de forma odiosa o cidadão comum mais vulnerável de todos: os pensionistas!

E depois dirige-se ao país?, ao cidadão comum que nada pode fazer porque não tem poder para isso? Quer dizer, tinha o poder do voto neste domingo...

 

Já se tinha dirigido ao país quando lhe tentaram reduzir os poderes presidenciais. E o que é que o cidadão comum podia fazer? Nada.

Já se tinha dirigido ao país no ano Novo a explicar a situação real do país, os tempos difíceis que estavamos a atravessar. E o que é o cidadão comum podia fazer que não tivesse feito já? Já tinha pago a factura e aguentado o barco à tona da água... Muitos até já tinham emigrado...

E agora dirige-se ao país para dizer que sempre foi isento, equidistante politicamente, etc. e tal. Isso o PSD já tinha compreendido. Porque também pagou um preço elevado por essa isenção.

 

Vê-lo ontem, vulnerável, deixou-me constrangida. Mas não me comoveu. Why not? Porque as verdadeiras vítimas da sua cooperação estratégica são precisamente os cidadãos que pagaram a factura de manter os caprichos irresponsáveis deste governo socialista.

Porque o Presidente sabia muito bem quais as ambições desmedidas deste governo, era impossível não saber!

Os tiques de autoritarismo, de manipulação grosseira de informação, a ficção nacional, a megalomania...

A ausência de supervisão bancária, as nacionalizações apressadas de bancos, a ausência de uma concorrência leal de mercados, a ausência de transparência de grandes negócios...

Ter todos os serviços de informação, secretas, polícias, na mão?

E a TVI? Não é uma verdadeira asfixia democrática? Achou bem ver os socialistas esvaziar essa questão fundamental numa democracia de qualidade? Isso não o preocupou?

E esta vergonhosa campanha eleitoral em que se comparou a líder do PSD a Salazar, quando são os socialistas que mais citam o homem (veja-se a ponte sobre o Tejo)?

 

Demasiado tarde. Já nem me refiro à questão das escutas, os socialistas não precisam de escutar nada, têm informadores, bufos, get it?

Mas refiro-me à degradação geral a que o país chegou.

 

 

A histeria, a dramatização, a fractura esteve quase toda ali a cargo dos socialistas. O circo, o palanque, a lama, são a sua especialidade. Se agora pensam que colocando um rosto sério, angelical, e voz melíflua, aveludada, nos vão convencer que nada têm a ver com a agitação e insegurança política actuais, forget it!

Vimos os discursos arrogantes e inflamados na AR, as insinuações e slogans da campanha eleitoral, a falta de educação mais básica, de respeito pelos adversários e pelas regras do jogo, a estratégia da chantagem política, da ameaça velada, da retaliação, isso está à vista como a sua marca genética.

 

A serenidade esteve do lado da oposição, à excepção talvez do BE que também revelou uma sede de poder e uma arrogância inusitadas na campanha e na noite dos resultados eleitorais.

É essa serenidade a melhor resposta à agitação. Serenidade e unidade, cada grupo à volta das suas lideranças.

Não subestimar a capacidade "criativa" de quem se agarrou ao poder e vai tentar chantagear tudo e todos para o manter.

Não ceder a pressões. Não se deixar enredar em intrigas internas. Estar alerta e atento.

 

E isto igualmente para o cidadão comum, aquele que escolheu a realidade em vez da ficção e que se vê agora arrastado no carrossel da demência nacional.

Serenidade é a única forma de se manter distanciado desta agitação geral. As trovoadas passam. No seu percurso o ar fica carregado de electricidade, mas depois da grande chuvada o ar fica mais limpo.

 

Para se manter saudavelmente afastado da demência nacional, evitar alguns programas televisivos que só alimentam a ficção nacional e a histeria colectiva.

Há formas mais saudáveis de obter informação fidedigna. Procurem-nas ou criem-nas. Numa democracia de qualidade tem de existir espaço para uma informação isenta e séria, adequada e eficaz.

 

Talvez uma descentralização progressiva do poder ajude a equilibrar o papel do cidadão comum numa sociedade de tecnocratas. E aí há espaço para associações locais, debates, iniciativas culturais, enfim... tudo o que significa vida  e pessoas. 

 

 

publicado às 09:02

A Saga Portucalense

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.09

Dedico este blogue aos bloggers da nova geração, essas vozes dissonantes que se destacam da mediocridade geral, que não se conformam com a mediocriodade geral e que se afirmam livres, autónomas.

 

Vozes assim são raras e nunca como hoje tão necessárias num país em ruínas...

 

A Saga Portucalense ainda vai continuar por muitos anos. Muitos episódios de filme de série B (ou pior, como os que vivemos actualmente) se irão desenrolar. E nem os seus habitantes (estranhos habitantes) se poderão mostrar escandalizados, porque escolheram a ficção em vez da realidade.

 

É por essas vozes que se destacam que vale a pena ter-me debruçado neste teclado. Vou, pois, e durante alguns dias, deixando aqui os links a essas vozes:

 

E começo pelo Bruno Alves com O Pântano, que podemos ler n' O Insurgente e no Desesperada Esperança.

 

O mesmo termo pântano, utilizado por um ex-primero ministro que se refugiou na ONU, também já tinha inspirado o John do Jardim de Micróbios e não resisto a colar aqui a parte final do post, digna de um cenário de filme:

 

"... Um verdadeiro pântano: lama, água estagnada e fedorenta, vegetação decrépita, nuvens de insectos à procura do sangue dos incautos. Não conhecemos o significado de "responsabilidade". "Mérito" é um conceito igualmente obscuro, apesar de haver agora um proto-partido que até inclui a palavra no seu nome. A "dignidade", essa, naufragou há muito. Se num assombro todos os casos acima citados - e os outros - fossem resolvidos, não ficava pedra sobre pedra neste país. Teríamos de fazer como aquele rei do inigualável Monty Python and the Holy Grail: construir castelo atrás de castelo no pântano, até que haja um que não se afunde, suportado pelas fundações submersas dos outros todos. E daí, talvez seja mesmo essa a solução. Como as coisas estão, é isso ou ir bugiar para tão longe quanto possível. "

 

 

Retomo também aqui a série de posts de Pacheco Pereira no Abrupto: Tudo está a mudar, tudo está na mesma. E a sua série Notas soltas quase sem tempo: situacionismo; o papel de Mário Soares e Alegre; reveladora indiferença; interferir por acção e interferir por omissão. E finalmente, Para se perceber a "asfixia democrática".

 

 

Na manhã seguinte: E a série Notas soltas quase sem tempo de Pacheco Pereira, no Abrupto continua: A 'operação Diário de Notícias; Deliberada censura; Fazer o mal e a caramunha.

 

Estas eleições legislativas, já o disse aqui, vão decidir o nosso futuro como país, a nossa viabilidade, de uma forma determinante. Estamos próximos de uma fractura social muito semelhante à que existiu no PREC. Há uma dramatização no ar, a manipulação de informação, a tentativa de tudo controlar. Claro que isso não se vê à vista desarmada e os distraídos não reparam em pormenores.

 

Pensar na simples possibilidade de uma reedição PS já seria um pesadelo, mas a possibilidade de uma coligação PS-BE é já o suicídio assistido, a eutanásia que eles tanto prezam.

 

Se as pessoas estivessem mais atentas, nunca deixariam passar certos pormenores: o estilo das campanhas, por exemplo, o espectáculo, o conteúdo do discurso, a histeria, o apelo à resposta emocional, a cor das bandeirinhas... pormenores.

 

Apesar da opinião dos jornalistas que as têm acompanhado, agradou-me a sobriedade e discrição das campanhas do PSD e do CDS-PP. É claro que no país isto é inédito, mas é esse o tom certo numa altura de graves dificuldades financeiras, em que muitas pessoas se sentem inseguras em relação ao futuro.

O tom certo é o do debate ponderado, a troca de ideias, o esclarecimento de dúvidas. Esse é o tom certo para uma campanha numa fase tão precária e complexa do nosso percurso.

 

Todos os casos e contra-casos que forem engendrar para perturbar a campanha e o período de reflexão do eleitor é da maior irresponsabilidade. Esse é mais um pormenor a que as pessoas deveriam estar atentas.

 

Tudo está em aberto, nada é previsível neste momento. Podemos apostar num ou noutro cenário, mas são apenas hipóteses... E seja como for, já se percorreu um caminho em terreno adverso, já se defenderam ideias em campo minado.

Há valores de que não podemos abdicar sem perder parte da nossa humanidade. A autonomia é um deles. A capacidade de escolha é outro. Uma cultura da vida, não uma cultura da morte. Valores como a responsabilidade individual, não a desculpabilização colectiva. São esses os valores que respeitam a dignidade de cada um, o seu valor intrínseco.

 

 

A dois dias do Dia D:

 

A serenidade: Sempre atenta a pormenores: a serenidade de Manuela Ferreira Leite a contrastar com a histeria da máquina socialista. A simplicidade da campanha laranja lembrou-me os tempos genuínos de 76. Também Marcelo Rebelo de Sousa o disse ontem, era o mesmo espírito, a mesma unidade. 

A serenidade será sempre mais forte do que a histeria, aconteça o que acontecer. Essa é a dimensão de um líder, a sua densidade, a sua consistência.

Foi um longo caminho em terreno adverso, com tudo a ser controlado, jornalismo caseiro, comentário doméstico, mas o PSD reestruturou-se, uniu-se, reencontrou a sua alma original.

A unidade do PSD, agora recuperada, essa chamade novo acesa, terá de continuar. Aconteça o que acontecer...

 

Agora só mais alguns pormenores: de todas as pessoas ligadas à vida política do país, Marcelo Rebelo de Sousa era daquelas que eu diria que nunca se deixaria surpreender por nenhum facto político acontecido ou por acontecer. Ele simplesmente sabe tudo, pensei, conhece os cantos à casa, mesmo de olhos fechados, ouve aqui e acolá, junta as peças do puzzle e até antecipa o que vem aí. Certo? Errado.

Ontem vi-o visivelmente preocupado. Vou tentar juntar algumas frases: ... ataque ao Presidente sem precedentes... a pensar nas próximas presidenciais... (estas foram ditas num jantar formal já não sei de quê). A máquina socialista andou bem... com todos os meios mais sofisticados... Quem normalmente nunca teria qualidades para chegar onde chegou... Agarrado ao poder porque não tem mais nada... um arrivista... (estas foi no programa da RTP1 num frente a frente com António Vitorino).

 

Também Pacheco Pereira e Lobo Xavier não escondiam a repulsa pelos comentários de António Costa na Quadratura do Círculo. Pacheco Pereira chegou aos termos são perigosos... capazes de tudo...

Nunca os vi tão eloquentes. O ambiente aqueceu, aliás ficou ao rubro. António Costa concluiu ameaçador: Espero que o PS sozinho consiga mais deputados que o PSD e o CDS juntos... Não percebi para quê, mas não parecia que lhes iria enviar chocolates.

 

Chegámos ao ponto mais crítico da nossa história colectiva, desde a mudança de regime, disso eu tenho a certeza. (Fiquei perplexa com a negação de Mário Soares, que não, que não tinha apelado à coligação PS-BE... Mas se eu ouvi!?)

Agora passamos pelos alibis para esconder desvios, os alibis para esconder incompetências, os alibis para esconder a realidade de país falido.

 

A quadriga socialista aí está, como previsto, a lançar lama para todos os lados. Mas até o President? O rosto de Marcelo Rebelo de Sousa dizia tudo.

 

 

E no entanto... olhando para trás, o que agora me incomoda é a cooperação estratégica... aquela cooperação estratégica... sim, a cooperação estratégica...

 

 

Na noite do Dia D:

 

Uf!... Ainda bem que não sou só eu a pensar assim... Já me sinto mais acompanhada!

 

 

 

publicado às 10:18

Um teste à capacidade de construir uma democracia de qualidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.09

As próximas eleições legislativas não serão apenas uma questão de escolha entre vários programas que servirão de base para a gestão do poder político.

Irão ser igualmente um verdadeiro teste à capacidade portucalense de construir uma democracia de qualidade.

 

Já houve um tempo em que havia ética e ideiais. E sim, posso situá-lo na primavera marcelista, de elites intelectuais com um nível que não voltámos a ter até hoje. E, alguns anos mais tarde, a possibilidade da concretização desse sonho, de uma democracia de qualidade, com Sá Carneiro e a AD.

 

Desde essa fase do nosso percurso, tem sido sempre em curva descendente: a decadência moral, cívica, cultural, económica e financeira, profissional, etc.

Únicas excepções: mudança de regime, embora nunca se tenha afirmado como uma democracia de qualidade; e liberdade de expressão, agora comprometida.

 

Sá Carneiro foi, até hoje, o único político a saber interpretar esse papel de levar o país para uma democracia de qualidade. À semelhança das democracias do norte europeu.

O país pareceu compreender a sua mensagem, até porque sabia comunicar de forma brilhante, e seguiu o seu sonho.

Não voltámos a viver nenhum momento assim, completamente virado para o futuro, sem saudosismos nem remorsos, com um lider de que verdadeiramente nos orgulhávamos.

 

Esta história, caros amigos mais jovens, está toda por contar.

O sonho foi interrompido e dificilmente o enigma se irá desvendar.

 

Estamos talvez no momento mais crítico desde a mudança de regime político. Não apenas a nível económico e financeiro, mas a todos os níveis: moral, cívico, cultural, profissional...

O trabalho deixou de ser valorizado. As relações deixaram de ser fiáveis. Valoriza-se o lucro fácil. É-se tolerante com quem prejudica o próximo e o colectivo. Perdeu-se a noção de competência, compromisso, responsabilidade.

 

De qualquer modo, os socialistas nunca perceberam nada de Economia, como pôr tudo em movimento, nem sequer sabem o que é um motor de arranque. Pararam o veículo numa daquelas suas auto-estradas-miragem, agora quase desertas, e não há modo de o pôr de novo a andar.

Como não sabem nada de Economia, a melhor forma de se aproximarem do metal sonante foi a intervenção directa nos bancos em situação duvidosa: dois em um, acesso ao poder económico e abafar o escândalo em que também estão metidos.

 

Sim, a sua especialidade são as Finanças e como esmifrar o contribuinte, nisso tornaram-se especialistas.

 

E já nem vale a pena referir a Justiça... Basta a Justiça deixar de funcionar e o equilíbrio perde-se. A balança já nem tem calibragem que lhe valha, está toda desengonçada, coitada!

 

O Emprego (prefiro o termo Trabalho, não sei porquê), como está directamente relacionado com a Economia e a Educação, e indirectamente com a Saúde, Justiça, Cultura... estamos bem tramados. É que não se podem inventar locais de trabalho assim sem mais nem menos. 

 

Quanto ao teste, o país irá perceber a sua importância?

Vejo uma tendência geral para a apatia... Nem se incomodaram muito com a ausência do seu jornal televisivo preferido, da Manuela...

Mas este foi apenas mais um sinal, a somar a tantos outros...

Sim, deve ter sido por isso, o factor habituação.

 

Estamos, sem sombra de dúvida, no período mais crítico do nosso percurso desde a mudança de regime político.

 

 

Nota 1: N' O Insurgente vi destacado por André Azevedo Alves um post de Rui A. no Portugal Contemporâneo: Afinal, as ideias servem para alguma coisa?

Nota 2: Este post de Rui A. levou-me a revisitar o Portugal Contemporâneo e a descobrir um outro, ainda mais surpreendente e oportuno, Rupturas, pela simplicidade e profundidade em simultâneo, da sua análise da nossa situação actual.

 

 

publicado às 10:43

E de que visão de país precisamos agora?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.09.09

Para já, os políticos de que precisamos terão de seguir, digamos assim,  o saudável princípio da realidade.

Um político que não tem a noção da realidade não nos serve para nada, a não ser para nos conduzir para um buraco do qual tão cedo não iremos conseguir sair.

 

Pelas afirmações e declarações de alguns políticos, ficamos a saber que não fazem a mínima ideia em que país vivem e, sendo assim, como podem eles pretender propor-nos seja o que for, ou construir o país que queremos ser, ou melhor, que podemos ser?

Como podem eles sequer vislumbrar as nossas potencialidades enquanto país?

 

Pelas afirmações e declarações de alguns políticos também ficamos esclarecidos quanto ao seu modelo de país.

Assim como ficamos esclarecidos quanto às suas referências culturais: o novo-riquismo e o deslumbramento com o poder económico e político.

Há aqui também uma grande imaturidade envolvida: alguém com uma estrutura adulta saudável não promoveria dependências e a mendicidade pública, mas a autonomia e a participação activa. Um adulto responsável respeita o colectivo.

 

A noção do colectivo adquire-se muito cedo na vida e consolida-se ao longo do percurso de cada um, sobretudo ali a partir da adolescência, o treino decisivo para viver inserido numa comunidade alargada mantendo a sua autonomia e espaço vital.

 

Já repararam que todo o desenvolvimento saudável de uma criança se volta para a autonomia? Para a descoberta do mundo à sua volta? Para experimentar e manipular os objectos? Para comunicar com os outros?

Toda a nossa motivação vital está programada para a autonomia.

Em breve, passaremos por vários testes que nos preparam para a integração em grupos cada vez mais alargados, em que adquirimos a noção de limites e fronteiras, e regras, e orientações, e códigos e ferramentas, etc., todo um manancial cultural para essa adaptação e integração saudáveis.

 

Sim, a noção do colectivo adquire-se muito cedo e é consolidada ali pela adolescência.

É por isso que ao olhar em volta tenho de concluir, com alguma perplexidade, que muitos adultos hoje em dia se estão a infantilizar, a sério! Vivem ou sonham viver segundo o princípio do prazer, do imediato, da satisfação das suas necessidades e desejos, sem mediação ou intervalo de reflexão.

Por isso também estas mensagens imaturas e pouco elaboradas de muitos políticos são absorvidas tão facilmente, a meu ver. Porque respondem a esse novo modelo de vida em que se valorizam os ricos e famosos, só porque sim, e se desvaloriza o trabalho sério e discreto, por exemplo.

 

A ausência do princípio da realidade não é, portanto, exclusiva dos políticos, verdade seja dita.

Se assim não fosse, como seria possível tantos cidadãos acreditarem nas promessas eleitorais de 2005?

 

Pois bem, de que visão de país precisamos agora?

Que respeite o princípio da realidade, em primeiro lugar. Que olhe bem para a situação actual do país, sem filtros cor de rosa nem manipulações de imagem, sem figurantes nem botox, sem marketing político nem comentários caseiros.

 

Posso desde já fazer um paralelismo com a elasticidade do corpo humano.

Estamos mais ou menos na fase da fisioterapia. Porquê?

Porque nos lançámos nos desportos radicais sem ter treinado convenientemente certos movimentos, exercitado os músculos, a caminhada, a corrida suave, a bicicleta, etc.

Porque nos deixámos conduzir por atalhos e acabámos a andar em círculos sem avançar como era desejável.

Porque confiámos nos menos dotados e menos informados para nos liderar.

Porque nos demitimos de participar nos treinos diários que exigem esforço e paciência e não confiámos nas nossas próprias capacidades.

E porque nos esquecemos de quem somos realmente, a nossa natureza, as nossas capacidades, o original, e quisémos imitar os figurantes.

 

Bem, fiquemos por aqui. Se este paralelismo não funcionar para referir a questão fundamental da nossa identidade portucalense, o nosso percurso até aqui e onde nos desviámos, então terei de ir procurar outro exemplo.

 

 

Nota 1:  Se bem que o exemplo não está mau de todo, pois também posso referir o estado de desidratação geral (para: liofilização do cidadão comum devida ao aspirador fiscal).

Nota 2: Só uma pergunta inocente: o que é que ainda falta acontecer nesta estranha república para se poder falar de asfixia democrática?

Nota 3: Inspirada na peça de Oscar Wilde, sobre um fulano chamado Ernest (há nomes que não deviam ser traduzidos...), ainda espero construir um post intitulado A importância de se chamar Manuela.

 

 

publicado às 10:39

De que políticos precisamos agora?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.09.09

De que políticos precisamos agora?

 

Certamente não o tipo de políticos que desrespeitam compromissos e infantilizam o cidadão comum, aquele tipo de político designado de forma elogiosa por quem gosta de ser subserviente, desde que possa partilhar algumas migalhas do poder, por homem determinado.

 

Numa democracia de qualidade, já o disse aqui, promove-se a colaboração e participação responsável do cidadão comum no seu próprio destino.

Numa democracia de qualidade, o cidadão comum é devidamente esclarecido e informado de cada proposta eleitoral.  

Numa democracia de qualidade, o cidadão comum é tratado como um adulto autónomo, capaz de escolhas responsáveis e decisões ponderadas.

 

É evidente que este tipo de político é uma raridade no nosso país. Assim à primeira vista vejo dois ou três mas acredito que, pela fórmula das probabilidades que o meu pai, que adora Estatística, me ensinou desde muito cedo, devem existir aí uns vinte pelo menos. Já é suficiente para iniciar um novo filme de série B, pelo menos. Sim, porque não espero milagres para já. Mas para quem está em pleno filme de série inclassificável... um filme razoável de série B já seria muitíssimo bom!

 

Claro que isto tem mais a ver com carácter e personalidade, a base do homem ou mulher digamos assim, pois é a estrutura com que ele ou ela vai comunicar com o mundo, neste caso, com as estruturas do poder local, europeu, fora de portas, etc., e com o cidadão comum.

 

É mais do que evidente que se o dito político revelar falhas estruturais a este nível, não serão os acessores, ou os moços de recados, ou os profissionais do partido, ou seja lá quem for, que irão preencher os buracos ou soldar as fracturas. Simplesmente é impossível. 

A base de apoio tem de ser sólida e saudável, à dimensão humana, de quem se sabe imperfeito e tenta aprender a melhorar o desempenho, de quem aceita os seus erros e os tenta corrigir, de quem olha em volta e interage de forma saudável e fiável.

 

Não precisamos de quem promova subserviências mas de quem promova a autonomia.

 

A seguir, irei abordar: que visão de país é necessária agora?

 

 

publicado às 21:05


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